quinta-feira, 18 de novembro de 2010

É dia de feira... do livro

Cheguei a começar a escrever um texto sobre o Enem. Comecei a descarregar uma série de “elogios” ao tão aguardado Exame Nacional do Ensino Médio. Resolvi deixar de lado. Nossa educação está tão cambaleante, que prefiro falar um pouco sobre o que resta de bom. Nada mais oportuno do que falar da Feira do Livro. E sobre esse assunto, eu posso falar durante horas.
Num país onde cada pessoa lê em média dois livros por ano (tenho carregado vários nas costas, se a média é realmente esta), as Feiras do Livro são cada vez mais importantes. Não apenas como uma exposição das editoras, mas para a descoberta pelo gosto de ler.
Eu lembro como criei o hábito da leitura. No início das férias de 1993, minha mãe jogou no meu colo “Os pequenos Jangadeiros”, de Aristides Fraga Lima. Foi meu primeiro dos mais de 80 da Série Vaga-Lume que li entre a quarta e a oitava série (competia com amigos para ver quem tinha lido mais exemplares da coleção). Até então, os livros que lia eram pequenos, com temáticas infantis, cheio de figuras. O Menino Maluquinho (o mais clássico de todos), os contos da carochinha, Heide, A Fada que tinha idéias, As aventuras do Cachorrinho Samba, Pollyanna, Tom Sawyer... Tudo isso era legal. Mas eu ainda não tinha sigo pego e jogado dentro de um livro com uma linguagem mais adulta (são obras infanto-juvenis, mas eu achava adultas, na época). E a série Vaga-Lume conquistou mais um de seus milhares de leitores.
Não estou querendo posar de CDF. Nunca fui totalmente dedicado e entregue aos estudos (bem menos do que desejado pelos pais). Na sala de aula, nunca fui do tipo comportado (imagina, era um grande exemplo da espécie hiperativus tagarelus). Tenho até a tese de que aprendi a gostar de ler nos constantes (e merecidos) castigos, trancado no quarto. Sem televisão e sem poder sair de casa, restava estudar ou ler. Daí eu lia...
A Feira do Livro reforçou o “serviço” prestado pela Série Vaga-Lume. Ter contato com um escritor parecia algo tão grandioso... Eu lembro de uma vez que Marcelo Carneiro da Cunha foi palestrar no Roncalli. Falando numa linguagem pré-adolescente, as histórias contadas pelo autor de Codinome Duda e Duda 2 – A Missão fizeram que duas professoras – minha mãe e a dona Simone, mãe do Matheus – comprassem cada uma um dos livros para que nos revezássemos. No mesmo ano, consegui o autógrafo do Sérgio Capparelli, que escreveu Os Meninos da Rua da Praia, livro que tinha em casa e fui correndo ler. Mais tarde, reencontrei os textos de Capparelli, mas na faculdade.
Há dois anos, cobrindo a Feira do Livro de Sapiranga, conheci um dos meus heróis, o Ziraldo. Entrevistei-o. Peguei autógrafo. Caminhei pela praça da cidade conversando com ele. E quando vi, estava de novo com O Menino Maluquinho na cabeça. Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Armindo Trevisan, Airton Ortiz, Juremir Machado da Silva. As Feiras do Livro me deixaram frente a frente com eles. Em Frederico veio o L.F. Verissimo!
Eu só lamento que o espírito das feiras não seja perene. Que, no outro dia, tudo fique esquecido. Que os livros comprados na maioria das vezes fiquem nas prateleiras. Que nas escolas, a leitura fique posta de lado para que o conteúdo seja concluído. Gostaria que um dia ainda fosse inventada uma fórmula mágica para que todo o dia fosse dia do livro.

publicado em 12 de outubro na Folha

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