Fala-se bastante de preconceito. E preconceito é sempre algo grave. Muito grave! Pois nesta semana tivemos um exemplo de como comentários preconceituosos podem beirar o ridículo. O fato foi protagonizado por um dos baluartes da imprensa catarinense. Contra pessoas pobres.
Se você não acompanhou o caso, explico rapidamente. Melhor será se você acessar o youtube e procurar por Luiz Carlos Prates. Será o primeiro vídeo listado. Veja logo antes que uma liminar retire o vídeo da rede.
O referido ocupa no Jornal do Almoço de Santa Catarina um espaço semelhante ao do Paulo Santana. Nas poucas vezes que acompanhei seus comentários, percebi que não chega aos pés do colega gaúcho. Suas opiniões muitas vezes expressam um reacionarismo de fazer inveja aos mais radicais conservadores. E um comentário feito nesta semana, sobre o trânsito intenso e os acidentes ocorrido no feriadão, comprovou que não é exagero afirmar isso. Segundo esse... ãh... (como é que vou chamá-lo sem usar palavras de baixo calão?) senhor, a culpada é toda “desse governo espúrio, que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.
Ou seja: o discurso do senhor Prates indica que pessoas pobres e com menor grau de instrução são culpados pelos os acidentes de trânsito. Veja este trecho: “o sujeito jamais leu um livro, mora apertado numa gaiola que hoje chamam apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele, sai, vão pra estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Segue com outra pérola: “hoje qualquer miserável tem um carro”.
Como se o caos no trânsito não tivesse a participação daquelas pessoas que tem três, quatro carros na garagem para os familiares poderem andar sozinhos; como se o cara que mora a 50 minutos do trabalho também não pudesse querer um veículo para se deslocar com mais conforto, como faz determinadas pessoas que não andam três quadras sem um automóvel; como se adolescentes criados em “berço de ouro” não enchessem a cara e não pegassem o carrão dos pais para testar a potência; como se somente pessoas com alto poder aquisitivo tivesse o direito de pegar a estrada para a praia num feriadão; como se todos os ricos fossem cultos e capazes, e pessoas com menos saúde financeira fosse burra e inaptos a dirigir; etc, etc, etc...
O que dizer? Já vi coisas sendo ditas irresponsavelmente nos meios de comunicação. Mas este é um caso extremo. Não importa se ele vai se desculpar, se vai ser demitido, se vai ficar na geladeira. Para mim, o que importa é que alguém com um raciocínio destes não pode ocupar um lugar de tamanho destaque num grande veículo de comunicação. Colocar a culpa no governo por não ter estradas em condições é uma coisa. Agora, culpar o governo por proporcionar à população acesso à bens de consumo? Acho que há uma inversão grave de valores aí. E é assim que a coisa se espalha...
link do video:
http://www.youtube.com/watch?v=uwh3_tE_VG4
PS: Pior que me deu peso na consciência. Escrevi uma coluna em 10 de setembro falando sobre o assunto. Afirmei que até era favorável que os preços do combustível e dos automóveis fossem elevados, pois não temos infraestrutura suficiente para suportar o trânsito. Mas juro que minha intenção não foi ser elitista (até porque eu não tenho carro e também moro numa gaiola que hoje em dia chamam de apartamento).
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