Exatamente no dia em que precisava ir aos bancos inadiavelmente – para variar, sempre na última hora, São Pedro abriu as comportas. Sabe aquela chuva mais ou menos fraca, mas que não dá trégua durante o dia inteiro? Pois é... E adivinha se o gringo aqui gastou que fossem R$ 5 em um guarda-chuvas (defendo a tese que guarda-chuvas foi feito para perder, assim como canetas)...Bom, os compromissos eram inadiáveis, e como sei que água da chuva não me faria encolher, enfrentei a intempérie. Não sem antes fazer todo um estudo sobre o trajeto, as condições das calçadas (lisas, esburacadas, com pedras soltas) e, principalmente, de avaliar qual trajeto tem mais marquises para evitar que as meias molhassem muito (sabe que estou ficando experiente nisso?).Pois bem, as marquises... Não consegui me meter embaixo de nenhuma até chegar ao banco... Quer dizer, até consegui, mas inacreditavelmente ainda tem gente que deixa para ver vitrines em dia de chuva, e o trânsito sob a proteção dos prédios ficou tão rápido como a Rua do Comércio em comemorações de títulos de futebol. Sem contar que, sob as marquises, me senti como um estranho, pois parecia que o espaço estava reservado apenas para pessoas com guarda-chuvas... Era ameaçar me acomodar sob uma dessas estruturas, e aquelas pontas já vinham ameaçando ferir meus olhos... Daí pensei: antes molhado do que cego e atrasado...Nestes devaneios que se tem nas filas bancárias (ainda passei por mais essa, e todo molhado) cheguei a uma conclusão genial: de que o mundo seria bem melhor se as pessoas de guarda-chuvas dessem passagem sob as marquises para sujeitos atrasados e molhados. Eu sei que não é por mal, é uma questão de instinto, de manter-se seco no molhado, mas isso fere os sentimentos daqueles que não usam guarda-chuvas...Pois bem, foi nesta situação, durante uma das meia-horas que perdi na maldita fila do banco, vendo as notícias na TV que é ligada para acalmar os clientes, que fiz uma daquelas analogias que nem o álcool é capaz de provocar. É ouvi falar do Senado e do nosso ilustre ex-presidente, eterno ocupante de cargos públicos e membro da Academia Brasileira de Letras (!!!) José Sarney. E fiquei pensando: não seriam os senadores como as pessoas que, portando guarda-chuvas do tamanho de guarda-sóis, vão cantarolando pelas ruas em dis de temporal, com o restante da família ocupando as marquises? Sei lá... Antes que esses distúrbios fiquem mais graves, é melhor eu comprar meu próprio guarda-chuvas. Mais um deles. E amarrá-lo no pescoço, para não perder. Ah, e depois dessa, juro que deixarei as marquises para os outros...
publicado em FN no dia 26-06-09
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