quinta-feira, 29 de julho de 2010

Revolução (?) na Educação

Revolução (?) na Educação

Uma das melhores entrevistas que já fiz foi quando trabalhava no Jornal NH, de Novo Hamburgo. Fui enviado para cobrir a Feira do Livro de Sapiranga, cujo patrono era nada menos do que o escritor Ziraldo. Ou seja: era a oportunidade de conhecer um de meus herói, nada menos que o cara que escreveu O Menino Maluquinho, as historinhas do Bichinho da Maçã e que era um dos mentores de O Pasquim.
Cheguei mais de uma hora antes da coletiva, para fazer uma ambiental da feira. Falei com as crianças que buscavam autógrafos do escritor e, sem querer querendo, aproximei-me dele antes da coletiva. Por falha da organização – e por vontade do próprio autor, que queria ficar mais próximo dos pequenos leitores – ele ficou “solto” pela praça, sem ninguém acompanhando. Ninguém menos eu, que fui pego pelo braço por Ziraldo e tive o privilégio de ouvir suas exclamações sobre a feira e comentários variados.
Uma das coisas mais marcantes do encontro foi a seguinte declaração quando ele disse em alto e bom som: “meu sonho era ser ministro da Educação”. Ao ver meus olhos arregalados, brincou: “falo isso também porque ninguém teria peito de me colocar lá”. Não consegui argumentar. Ele emendou: “ia acabar com esse modelo de ensino fundamental. Não teria mais disciplinas. Essas crianças iriam ficar da pré-escola até a oitava série aprendendo a sonhar”.
Enquanto ele empolgava-se com o próprio discurso, eu ficava maravilhado com o que ele dizia. Para Ziraldo, os primeiros nove anos escolares devem ser destinados apenas para se aprender a ler, escrever e fazer as “cinco” operações fundamentais – adição, subtração, multiplicação, divisão e “regra de três”. “Elas têm que fazer isso com a mesma naturalidade com que andam, com que respiram. Quando fizerem isso, vão ser capazes de aprender qualquer coisa, vão ser melhores que o Einsten, e depois vão se especializar, aprender Gramática, Trigonometria, no Ensino Médio, porque isso são especialidades”.
Já sabia que esse mineiro sempre foi revolucionário - tanto que fazia graça do governo em plena ditadura militar -, mas não acahava que cehegava a tanto. Saí de Sapiranga depois de quase duas horas próximos a Ziraldo, e ainda mais fã. E concordando com o autor. Não sei se ele foi convincente o bastante, ou se eu é que não me atrevi a constrariar meu ídolo. Ainda mais porque já observei tanta gente que não consegue interpretar textos fáceis, ou que tremem ao tentar expressar seus pensamentos diante de uma folha de papel em branco, então para mim o raciocínio dele era válido. Não perguntei como isso poderia ser implantado, até porque acho até ele mesmo considera utópica uma mudanças dessas.

* parte da Coluna publicana na Folha do Noroeste de 08-01-09

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