sexta-feira, 30 de julho de 2010

Fome de cultura

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.Esta frase é fragmento da música “Comida” composta por ArnaldoAntunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto e que consta no quarto álbumda banda Titãs “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” de 1987(melhor período vivido pela banda e pelo Rock nacional). Desde então,esse é um jargão usado sempre quando as discussões tratam do tema“Cultura” (considerando o significado dessa palavra o atribuído pelosenso comum, sem nenhum debate antropológico, por favor).Volta e meia esse assunto entra em pauta, geralmente em discussõesentre a elite mais letrada. Por que? Boa pergunta! Até porqueconsidero que esta é uma das áreas mais importantes, junto comEducação e Saúde. Isso porque penso que, para conseguir passar poresse mundo sem apertos, é preciso ter saúde e acesso a conhecimento –e a arte é sim conhecimento (a propósito: arte significa técnica,habilidade).Peças de teatro, telas de pintura, esculturas, filmes, livros, músicas(no meu conceito de música estão descartadas todas e quaisquer bandasque não fazem outra coisa senão chorar as pitangas de tanta dor decorno), tudo isso instiga a pensar, ativam o raciocínio, informam. Adança, além de proporcionar beleza para quem assiste, faz um bemimenso ao corpo de quem pratica... Enfim, acredito que quanto maisacesso as pessoas têm a cultura (do ver ao fazer), mais inteligenteselas ficam.Bom, se faço esse discurso favorável a arte, devo defender tambémpolíticas públicas que possibilite a todos a ter acesso a isso. Porém,temo pela eficácia dessas medidas. As mais conhecidas são Lei Rouanete a LIC (Lei de Incentivo à Cultura), por exemplo. Elas permitem queempresas destinem parte de seus impostos para organização defestivais, feiras, oficinas. Mas o processo é tão burocrático, que épreciso ser um profissional muito preparado para conseguir, emprimeiro lugar, aprovar o projeto e, num segundo momento, captar osrecursos. Assim, acaba acontecendo que apenas grandes produtoras – degrandes centros - acessem os recursos (alguém aí da região sabe dizerquantos desses projetos foram destinados pelos municípios da região?).Sem contar que as grandes produtoras são empresas, e como tal têm fimlucrativo, e todos sabemos que o “bem de todos” só vem antes de bolsono dicionário (há previsão de mudanças nas regras, mas não se sabepara quando).Agora uma nova – e polêmica – medida está sendo adotada pelo nossopresidente: o bolsa-cultura (como gosta de bolsas esse nosso guia).Pois a proposta deste novo programa é dar 50 pila por mês para ocidadão gastar em espetáculos, cinema, livros, etc... Em primeirolugar, julgo que é preciso muita coragem estipular bolsa atrás debolsa como o Lula faz. Não é à toa que a massa (especialmente asclasses D e E) ovacionam o barbudinho. Por outro lado, é possível verum sorriso largo nos rostos de donos de livrarias, artistas eproprietários de casas de espetáculos e/ou cinemas..

Mas daí eu pergunto: para o povo do interior, como que fica? Porque hámunicípios que não tem sequer uma banca de revistas, imagina entãoespetáculos... Frederico Westphalen é um dos poucos municípios commenos de 30 mil habitantes que tem local adequado (o Salão de Atos daURI) e que, mesmo que com frequência muito pequena, é roteiro detournês de artistas.

Creio que a questão mais central não é a validade desse tipo deincentivo, fruto de uma política assistencialista jamais vista (esta éapenas uma entre tantas bolsas). É difícil julgar o quão eleitoreira éessa proposta, e também ficam dúvidas para avaliar se essa é a melhormaneira de tornar o que se chama de cultura mais acessível àqueles quegeralmente ficam do lado de fora da porta catando/vendendo latas debebidas. E também é difícil saber se vai receber esse benefíciorealmente as pessoas que não tem condições (a aplicação das outrasbolsas demonstram que há muitas imperfeições a serem corrigidas nessemodelo).Portando, eu pelo menos estou dividido. Quero muito que se “banalize”a (boa) cultura. Mas não queria ver isso tendo cunho eleitoral, gentese aproveitando de recursos públicos e, pior, ver se espalhar aindamais essa prática de oferecer as coisas de mão beijada. Mas comotambém não tenho uma solução genial na ponta da língua, cruzo os dedospara que isso, ao menos, mate um pouco da nossa fome de cultura.

FN - 31-07-09

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