“Política não é para freirinha”, disse-me um deputado federal do PT no intervalo de um debate numa grande rádio de Porto Alegre, depois de sair do estúdio um tanto alterado para pegar uma água e respirar. De fato precisava respirar: o parlamentar foi sufocado por perguntas cabeludas de ouvintes e do apresentador. Os demais políticos que participavam do debate – um de partido tradicionalmente aliado ao PT, outros dois de Oposição (oposição no Estado, já que em Brasília estão juntos por ora) - não precisaram se esforçar para ver a figura perdendo a linha.
Fiquei pensando o que se passava na cabeça deste senhor, um dos maiores nomes do partido no Estado, vinculado à sigla há 20 anos, ex-prefeito de uma grande cidade gaúcha (já dei muitas pistas, vamos parar por aqui). A primeira coisa que notei foi constrangimento: como explicar o pedido de impeachment de Yeda por supostos desvios de dinheiro público e ao mesmo tempo apoiar Sarney e sua rica família? Como achar coerência nisso?
Ele poderia estar pensando: “o Lula mete a gente em cada uma... Quer que apoiemos o PMDB no Rio Grande do Sul para eleger a Dilma. Mantém na base Paulo Maluf e Fernando Collor (tudo indica que este terá o apoio do presidente no pleito ao governo do Alagoas). Faz a gente engolir o Sarney depois de tudo o que falamos contra ele quando estávamos na oposição (ele não era um dos 300 picaretas, presidente?)”... Ou então: “Quanto tempo será que vou ter que responder porque o partido quer investigar o Detran, mas faz de tudo para não deixar passar a CPI da Petrobrás? Por que cada vez que eu dou entrevista eu tenho que explicar assuntos relacionados ao Celso Daniel, ao Mensalão, às mentiras do currículo da Dilma?” Juro que, quando o parlamentar suspirou, imaginei ele enchendo a boca para falar: “Ah, que saudades de ser oposição”...
Não sei se ele pensou isso. Mas acho que é a única coisa que justifica o estresse do parlamentar de um deputado que só conseguia justificar as perguntas com “é preciso fazer concessões para mantermos governabilidade”...
Mas me caiu a ficha rapidinho: que ingenuidade da minha parte! Como é que nosso protagonista, que foi um dos defensores mais ferrenhos do projeto que possibilitava um terceiro mandato para o presidente (o que, num lampejo de decência, foi barrado no congresso), poderia estar preocupado com outra coisa que não fosse as eleições do ano que vem?
Nossas instituições estão em crise. Principalmente os governos estadual e federal. Sinceramente, considero dois bons governos (pelo menos acima da média). Vão me jogar pedra e me chamar de otimista, burro, cego, o que for, mas é o que penso: administrativamente as coisas vão relativamente bem. O problema é o que acontece no plano político: o confronto de interesses, a queda de braço por benefícios, a necessidade de ter votos necessários para aprovar propostas e a briga por visibilidade é muito forte tanto lá quanto cá! É por isso que a afirmação desse deputado soou desprovida de hipocrisia, quase como um sincero desabafo do que ele realmente pensa sobre política: que ela está acima da constituição, do bem e do mal, que imunidade parlamentar é um passaporte divino para toda a família aos cofres públicos... Realmente, nada a ver com “freirinhas”...
18-09-09
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