sexta-feira, 30 de julho de 2010

Momento Dinah: comícios com os dias contados

Converso com pessoas mais experientes, antigos “esquerdistas” (seja
lá o que isso signifique): todos estão decepcionados com a apatia dos
movimentos sociais, principalmente do Movimento Estudantil. Entendo o
que querem dizer: durante a graduação, no Diretório Acadêmico e no DCE
discutíamos maneiras para seduzir os colegas a participar de nossas
causas estudantis. A cada reunião, menos pessoas compareciam (“é perda
de tempo!”). Nós, ao invés de compreender os motivos do esvaziamento,
reagíamos chamando os demais colegas de “alienados”.
A verdade é que não percebemos, naquele momento, que não estávamos em
68 ou 92. A resposta para “por que não havia interesse em participar?”
parecia encontrar resposta numa velha tese do ME, que atribui esse
“descaso” a falta de um “inimigo” em comum. Segundo esse raciocínio, o
ME só teve força nos momentos em que a “conjuntura” era percebida
diretamente pelos estudantes (falta de liberdade de expressão durante
o Regime Militar, por exemplo).
Hoje, discordo desse pensamento. Em 1968 a televisão no Brasil era em
preto-e-branco, com parcos recursos técnicos e ainda por cima não era
acessível a todos! Video Game e Internet então, nem pensar! Por outro
lado, acho que a juventude quer sim se manifestar, tenho convicção de
que é uma necessidade. A diferença é que hoje o palco da disputa
ideológica não é a rua, mas a Internet. Principalmente os sites de
relacionamentos, como Orkut, Facebook e Twitter. Os velhos panfletos
deram lugar para as correntes de e-mails com arquivos .pps (slides) ou
.wma (audio e vídeo), geralmente com teor satírico, “denunciando”
Bush, Chavez, Lula, Sarney, Serra, FHC, Josés Dirceu e Genoíno, Maluf,
Yeda, Brito, Tarso, Olívio e Rigotto.
Em alguns casos, uma bolinha de neve vira avalanche: as análises de
especialistas, charges políticas, crônicas bem-humoradas, e
infográficos animados são enviados pelos próprios produtores do
conteúdo aos contatos, que repassam, e assim por diante.
Pois veja o que aconteceu recentemente, no auge das denúncias contra
Sarney e os atos secretos: mais de um milhão de pessoas escreveram no
microblog a frase “Fora Sarney”. O fenômeno foi divulgado nos maiores
veículos de comunicação do Brasil. E essa movimentação empolgou um
grupo de pessoas, que resolveu organizar uma manifestação nas ruas do
Rio de Janeiro. E o que aconteceu? Não apareceram dez pessoas...
Ninguém mais quer sair de casa para protestar. Muito menos para falar
sobre política. Estamos em um tempo em que a hierarquia de valores foi
modificada, o prazer e o entretenimento estão acima de tudo, em que ao
mesmo tempo em que todos estão conectados, há menos coesão de grupo e
mais percepção do individual. Esses mesmos jovens podem até parecer
sem objetivos claros (não sabem o que querem! diria uma tia), mas têm
noção do que não querem.
Talvez a próxima eleição ainda não seja toda decidida via rede
mundial, como foi no último pleito norte-americano (a assessoria de
comunicação de Obama deu um show on-line), mas tenho certeza de que,
logo ali na frente, só serão eleitos para cargos públicos pessoas
conhecidas também virtualmente. E, queira Bill Gates, será o fim dos
comícios!

25-09-09

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