sexta-feira, 30 de julho de 2010

Mantendo critérios

Sempre ouvi das pessoas mais velhas que é preciso ser coerente. E que para ser coerente, é preciso de critérios. E cheguei a conclusão que ser coerente não é sinônimo de ser, por exemplo, politicamente correto... Por exemplo: sou a favor do combate à fome. Acho ainda que é um dever do Estado dar o básico às pessoas. Mas sou contra o Fome Zero porque considero que este programa se trata de assistencialismo com fins eleitoreiro, o que sou totalmente contra. Assim, vou ser coerente com aquilo que me interessa (usarei em meu discurso os argumentos que me interessam para expôr meu apoio ou meu repúdio ao atual governo).Estudei em uma universidade federal bem na época em que se discutia a questão de cotas. O assunto dividiu muita gente. Embora todos concordassem que era preciso dar acesso à educação a todos, principalmente aos estudantes de classe mais baixa, os critérios que foram adotados receberam muitas críticas. Simplesmente pegar o senso do IBGE e dizer que no vestibular deveriam passar tantos por cento de negros, de índios, de pobres, tantos por cento de alunos egressos do ensino público, de certa forma, não convenceu a maioria (principalmente aqueles que conquistariam a vaga não fosse a reserva de vagas) nunca pareceu um bom critério... Daí veio o pró-Uni, cujo programa previa a “compra” de vagas nas universidades particulares pelo MEC (diga-se de passagem que muitas instituições livraram-se da falência por causa da iniciativa), que estabeleceu uma faixa de renda mensal familiar definindo quem poderia ser beneficiado ou não (conheci gente que, por receber alguns reais a mais ficou de fora e acabou desistindo de fazer, naquele momento, um curso superior. Foi a primeira vez que vi alguém querendo ter um salário menor)... Para andar de ônibus de graça é preciso ter mais de 60. Não adianta ter 59 anos e 11 meses, que não dá. É preferível um senhor de meia idade, com recursos, não pagar a passagem e ter acento preferencial, do que um outro, um pouco mais jovem e sem condições financeiras... E assim por diante: carteira de motorista, só para maiores de 18 anos (e ai de quem tentar fazer as aulas práticas uma semana antes de atingir a maioridade). Passar no exame do colégio com 6,9 não dá, apenas com 7 (nada mais “justo” para medir o grau de conhecimento dos estudantes). Prender um adolescente que matou duas pessoas a sangue frio um dia antes de fazer 18 anos em uma cela com presos comuns, então, é um escândalo! Sem falar na quantidade de adolescentes que ficaram contando as horas para fazer 18 anos e poder locar vídeos adultos sem serem censurados (quer maior rito de passagem para um jovem do que esse?)...Uma das polêmicas da semana (em se tratando de projetos, não de acusações de corrupção) agora envolve a alteração para cima de critérios para definir o índice de produtividade de propriedades rurais (com mais de 15 hectares, diga-se de passagem). Quem estiver abaixo do índice (que varia de acordo com a cultura e a região em que é produzida), pode ver seu terreno desapropriado para reforma agrária. Resolvido! Tão simples como um agricultor descapitalizado receber a terra e conseguir ampliar o índice. Só posso classificar isso como genial! Quem fez isso nem precisou pensar muito: preguiçosamente, adotou um critério qualquer para usar como desculpa para resolver um outro problema...As vezes penso que estamos ficando, a cada geração, mais burros... Cada vez mais, as coisas são transformadas em matemática (nunca fui muito amigo dessa disciplina mesmo). As questões estão sendo resolvida apesar de diferença de grãos, quilos, dias, decimais. Estamos mergulhados no simplismo. Inclusive esse texto buscou ser, preguiçosamente, o mais simplista possível, para não fugir dos critérios de tempo e espaço para fechar a página...

FN - acho que foi em agosto de 2009

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