sexta-feira, 30 de julho de 2010

A (Des)Proporção de Brasília

Durante uma caminhada pelos corredores subterrâneos da Câmara dos Deputados, deparo-me com um grupo de vereadores discutindo acaloradamente sobre a fundação da capital federal. “Brasília foi construída pelos nordestinos, e não por essa elite que acha que manda aqui. Fomos nós que fundamos realmente esta cidade, com nossa força de trabalho, nós que povoamos o distrito federal todo”, discursava inflamadamente um parlamentar, defendendo todos os trabalhadores de Pernambuco, Piauí, Bahia, Maranhão, que buscaram uma oportunidade no território onde então seria a capital federal. As afirmações, no entanto, logo sofreram contestações. “Juscelino Kubitschek, que peitou esse desafio de tirar os poderes do Rio de Janeiro, nasceu em que Estado mesmo?”, argumentou um mineiro. Um goiano não se segurou: “Peraí! Dentro de qual Estado foi construído isso aqui? Isso tudo é Goiás, um Estado tão próspero quando aqueles do Sul. Nossa agricultura é de exportação, tem tecnologia de ponta!”, completou... Pensei comigo: para isso virar piada, só falta um gaúcho. Pois não demorou dois segundos após esse pensamento até que um gaudério entrasse no meio da roda em apoio ao goiano. “É verdade! Isso tudo aqui é Goiás. E, como todo mundo sabe, Goiás é uma terra de gaúchos. Fomos nós do Rio Grande que colocamos isso aqui no mapa”... Parecia que torcedores de futebol protagonizam em bares – esse é outro assunto muito recorrente também aqui. Mas, ânimos exaltados à parte, Brasília é um campo que pode ser considerado neutro. Aqui todos estão representados: homens, mulheres, heterossexuais, homossexuais, brancos, pretos, pardos, amarelos, nordestinos, manauaras, paulistas, gaúchos, gremistas, colorados, são-paulinos, (muitos) flamenguistas, baianos... É o principal lugar de tomada de decisões desse extenso Brasil, onde se faz necessária a presença de cidadãos de todos os cantos.
O menor lugar onde pode ser ver com clareza essa variedade (esse zoológico, diria um outro) de cultura e sotaques do Brasil é o plenário da Câmara dos Deputados. Claro que não existe uma proporcionalidade de homens equivalentes aos números indicados pelo IBGE – senão, teríamos mais deputadas do que deputados. O mesmo vale para raça, orientação sexual, torcida de futebol e (principalmente) classe social. A única proporcionalidade levemente respeitada é o de número de habitantes de cada unidade da federação, dado que determina (ou melhor, que é referência) para o número de parlamentares por Estado. Isso na Câmara. Já no Senado, todos são tratados igualmente -são três para cada Estado. Porém, para nós, gaúchos, essas as duas formas de representação se revela como um problema. Nossa bancada é menor do que a paulista, a carioca, a mineira – três Estados do Sudeste brasileiro – e a baiana. No Senado, temos nove eleitos pelos três Estados do Sul, diante de 27 do Nordeste e 24 da região Norte. Assim, todo e qualquer projeto –pegamos o Programa de Aceleração do Crescimento como exemplo – acaba não beneficiando tanto nosso território. Explico: quando liberado tantos milhões para a construção de casas populares, independentemente de onde o projeto original esteja prevendo a destinação de recursos, quando é apreciado na Câmara, recebe emendas e emendas dos deputados de todas as regiões, cada um puxando a brasa para o seu assado. Na hora da votação, prevalecem as negociações das maiores bancadas estaduais. Aí, já todo remendado, o projeto chega no Senado, onde recebe mais emendas, que no fim das contas acaba beneficiando a articulação entre os representantes das regiões com mais unidades federativas. Conversando com o assessor de um deputado sergipano durante um almoço no bandejão da Casa, aprecio a seguinte avaliação: “Temos poucos deputados (oito), mas sempre negociamos com aqueles que têm mais, e oferecemos nosso apoio para qualquer necessidade. Não importa o>> >> partido. Essa coisa de brigas entre partidos, de um não votar no que o outro fez é mais uma mania aí do Sul (para eles sul é tudo o que está abaixo da Bahia no mapa)”. Acho que isso explica muitas coisas: a começar pelos investimentos abaixo do ideal no RS, até, por fim, o surgimento da “amizade” entre os deputados, as negociatas, a falta de identidade partidária... Tudo sob a justificativa de defender os interesses dos eleitores. Mas isso é para outro papo de corredor...

(Publicado na Folha do Noroeste em 28-05-09

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