Se eu pudesse voltar atrás e escolher uma profissão, não teriadúvidas: viraria araponga! Sim, araponga, desses que fazem escutastelefônicas... Se eu tivesse pensado nisso antes, quando fiz adisciplina de tecnologias de informação, talvez até teria trocado afaculdade imediatamente... Embora eu não saiba de faculdade nenhumaque ensine isso... Sei lá, acho que tentaria entrar na Polícia Federalmesmo. Tudo para aproveitar esse mercado em ascensão...Meu raciocínio é o seguinte: com o desenvolvimento alucinante dastecnologia da informação, deve estar faltando gente preparada parafazer escutas. Até porque vivemos numa época dominada por realityshows, em um tempo em que tudo é gravado, documentado... Somosgravados em bancos, farmácias, supermercados, lojas, nas ruas, nasBRs, entramos na internet com a webcam ligada, gravamos vídeos paramandar para o Fantástico... Deve estar faltando profissionaispreparados inclusive para interpretar o que está sendo falado (atéporque está provado que, enquanto estiverem de meias, os envolvidosnegam)...Enfim, acredito que ser araponga é ser contemporâneo! Não foi atelevisão ou os computadores que nos colocaram em uma nova era. Alinha divisória entre passado e presente está, sim, no advento dasmodernas práticas de vigilância. A importância é tão grande que estácriando novas línguas: hoje, na política e nos presídios, já hápessoas desenvolvendo novos códigos, alterando o significados depalavras, na tentativa de burlar nossos heróis, os arapongas.Ser araponga ainda daria vazão para aquele lado que sempre tentamosesconder, aquele pecaminoso lado voyer (nem venha achar que isso éfeio, porque todo mundo é um pouco voyer!). Iria me divertir ouvindoos outros (outros não, só pessoas importantes) contando “causos” notelefone. Imagina só aquela autoridade vista por nós, reles mortais,como se estivesse sobre um pedestal, falando sobre os tapas que aMelissa deu na Yvone na novelas? Ou do momento em que o Abel viu aNorminha se agarrando com outro, e depois jogou as roupas dela forasob aplausos da vizinhança? Ou melhor, deputados e secretários fazendofofocas sobre o ambiente de trabalho (gente importante trabalha comgente importante)? Ou falando de coisas ainda mais íntimas, comocercas puladas, testes do sofá, filhos não reconhecidos, empregos paraparentes e outras tantas barbaridades que só ficamos sabendo viaContigo, Quem e Caras? Trabalhar com isso iria ser muito melhor do queassistir ao Leão Lobo!!!
***
Recomendo a todos que ainda não leram as 1,2 mil e poucas páginas dadenúncia do Ministério Público Federal contra Yeda e sua turma,baseada em mais de três mil horas de escutas telefônicas (isso é maisdo que minhas colegas de faculdade juntas conseguem falar em um mêspelo telefone!!!). Bom, eu também não li tudo, apenas as partes mais“picantes” recomendadas pela rádio corredor. Mas já é suficiente pararecomendar para vocês. Para quem gosta de tramas do gênero “rir paranão chorar”, é um prato cheio!Se vai servir ou não para desvendar esquemas de caixa dois eimprobidades administrativas, eu não sei. Até porque, honestamente,não acho que o conteúdo revelado até agora seja mais escandaloso doque mensalão, Sarney, caso Celso Daniel... (o jornalista PolíbioBraga, que foi o primeiro a abrir para o público em geral o conteúdodas gravações, classificou as denúncias com a seguinte frase: amontanha pariu um rato...). Mas está servindo, com toda a certeza,para a diversão (quase um carnaval) daqueles que gostam de ver o circopegar fogo. As escutas revelam pessoas falando muito mal de deputados,tem palavrões que eu nunca tinha ouvido, há comentários sobre a boasaúde física de uma procuradora do Estado (chamaram ela de gostosamesmo!)... Nem as piadas do Ary Toledo são tão bagaceiras... No fimdas contas, acho que foi por isso que pediram segredo de Justiça paraeste conteúdo: para poupar o povo de baixarias com o dinheiro público,mas principalmente baixarias provocadas pelo comportamento de quemdeveria dar o exemplo! Cheguei até a ouvir, durante um cafezinho,alguém mais antigo suspirando um “ah, que saudades da época em quegrampos eram aqueles que as mulheres usavam nos cabelos”...
FN - 14-08-09
Sem comentários:
Enviar um comentário