sexta-feira, 30 de julho de 2010

Politizando

Imagine a situação: seu filho, criado com todo amor possível, chega para você e revela: quero trabalhar em política!!! Sim! Aquela criança que recebeu tudo de bom e do melhor, a quem nunca faltou nada, resolve entrar num mundo que te enche de medo. A impressão que se tem é de que o rebento está anunciando que está entrando para o crime organizado. Você tenta dissuadir, oferece outras opções menos perigosas, como vacinador de tubarões, limpador de vidros externos de edifícios com mais de 20 andares, ou então professor de escola estadual. Mas não dá certo, ele está decidido: estará nos bastidores da política ou, até mesmo, concorrerá a um cargo eletivo...Infelizmente, essa reação (exagerei um pouquinho, eu sei) é a que 11 entre 10 pais de amigos meus teriam. A política, hoje, está tão atolada na lama que as pessoas preferem nem saber o que está acontecendo... É mais ou menos aquela sensação que se tem um dia após a derrota do seu clube num Gre-Nal: evita-se ler, ouvir ou ver qualquer coisa que lembre do caso.Porém, tentar esquecer nunca resolveu nada. E desacreditar pessoas dispostas a se envolver com a tomada de decisões no município, estado ou país é um desserviço à renovação, um empecilho à formação de líderes mais adequados ao tempo em que se vive e com menos daqueles vícios que se adquire ao longo dos anos. Não se pode subestimar a capacidade da gurizada. Se eles (e me incluo nesse grupo) deixam a desejar nesse aspecto, é porque a sociedade mesmo não incentiva, impõe resistências e preconceitos.Faltam pessoas qualificadas e com disposição para trabalhar na política (técnicos administrativos, secretários, assessores) e também para concorrer. Creio que é preciso estimular o envolvimento dos mais novos, seja em grêmios estudantis, diretórios acadêmicos, juventudes partidárias, clubes como o Interact e Leo Club, até movimentos religiosos (que também deve assumir o papel de construtores de opiniões). Na escola mesmo os professores poderiam falar um pouco mais sobre o processo democrático (pelamordedeus, não façam como nas aulas de Educação Moral e Cívica e de O.S.P.B., que para quem não sabe é Organização Social e Política Brasileira, disciplinas impostas durante o regime militar). (Uma hora dessas escrevo mais sobre isso, mas defendo que a participação nestes movimentos e fazer trabalho voluntário deveria ser critério para classificação em vestibular).É justamente pela capacidade de indignação e reação dos jovens em oposição do conformismo daqueles que pensam que “é assim mesmo”, que “nunca vai mudar” que acho que estamos perdendo tempo ocultando as “verdades” da vida dos inocentes olhos dessas criaturinhas que amamos. É sim responsabilidade de pais e professores fazer aflorar a preocupação com as decisões, sob pena de termos que aturar Sarneys por mais de 30 anos sugando a máquina pública “secretamente”.

publicado em FN no dia 24-07-09

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