sexta-feira, 30 de julho de 2010

Lições do seu Feijó

No Grupo Sinos, em Novo Hamburgo, tive a oportunidade de conhecer o seu Feijó. Uma lenda da fotografia gaúcha. Já cobriu Copas do Mundo, trabalhou em veículos como o Correio do Povo e o Jornal NH, acompanhou de perto toda a ascensão e queda do setor calçadista, esteve perto de inúmeros presidentes da República – inclusive Vargas. Enfim, nos seus mais de 80 anos, tem muita história para contar. Sempre é entrevistado como fonte nas pesquisas históricas sobre a cidade – ele tem praticamente a mesma idade da emancipação do município. Mesmo aposentado, entre as 16h e as 18h ele ocupa a sua cadeira com os colegas da fotografia. Numa época de máquina digital, ele repassa ensinamentos de uma época em que se trabalhava com filme e fotos em preto e branco.
O melhor de ter seu Feijó por perto é observar a lucidez e a disposição que ele mantém com mais de oito décadas de vida. Depois do jornal, ele vai para um shopping tomar um cafezinho. Todos os dias. Sempre com pessoas muito influentes da cidade. Seu Feijó é respeitadíssimo. Mas, conversando com ele, certa vez, entendi um pouco desse comportamento. Ele enfrenta um drama: os amigos que ainda restaram, já não contam com a mesma lucidez que ele. As pessoas com quem ele se relaciona não têm a mesma idade, muito menos a mesma vivência. Não presenciaram os momentos que o seu Feijó presenciou. Hoje ele é uma pessoa muito respeitada e admirada. Mas já não conta com os amigos que o cercavam outrora.
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Sexta de noite, em Frederico, dois amigos me contam: tu “ficou” sabendo do Profeta? Morreu faz um tempo já. Acidente de carro...
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Sábado de manhã, véspera da Páscoa, recebo a seguinte mensagem da Luísa no meu celular, colega de faculdade e de Jornal NH: “Não sei se tu já sabe, mas o Ceratti faleceu hoje, pescando no Uruguai e morreu afogado”.
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Num sábado de manhã, já há quatro anos, meu primo me acorda com a seguinte notícia: cara, a Munique morreu essa madrugada”
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Há uns cinco anos, meu irmão me liga numa sexta-feira de tarde, enquanto eu estava no meio de uma aula de Metodologia de Pesquisa em Comunicação, fazendo trabalho em grupo: “Thiago, o Cris morreu”.
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Já faz cerca de 10 anos. Num domingo, por volta das 23h, o Daniel liga dizendo: “cara, o Simpson foi encontrado morto”. Isso logo depois de eu conversar com o irmão dele enquanto esperava um xis.
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Não visitei nenhum deles no Dia dos Finados. Estava próximo da maioria. Mas não fui. Até porque não lembro deles apenas no dia 2 de novembro. Prefiro ir ao Cemitério quando não tem mais ninguém. Volta e meia, uma situação faz com que um deles e de tantos outros conhecidos que não chegaram aos 30 anos mas já partiram apareça na memória. E deixo escapar um sorriso. Porque ainda não caiu a ficha! Lidar com a morte é o maior drama dos seres humanos. Cada um busca uma forma de alento. Eu, por exemplo, prefiro pensar que todos se mudaram para o Acre, onde provavelmente, estão estudando, trabalhando ou constituíram família. E que estão felizes.
Pensando nisso, me sinto um pouco como o seu Feijó. Posso contar o que aconteceu, mas os “cúmplices” de cada situação já não estão mais aí. “Pensar nisso só prova que ainda estou vivendo”, ensina o grande fotógrafo.

05-11-09

PS: passado quase um ano desta coluna, tenho pelo menos mais quatro amigos que poderia acrescentar e que foram. Um câncer no cérebro (grande Valton!), outro de infarto (Gê), dois de acidente de trânsito (Maicon e Jeferson). E o professor Véscio. Saudades de todos!

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