Tenho um professor no curso de pós-graduação em História, Comunicaçãoe Memória do Brasil Contemporâneo que é uma figura. O Maronese. É asegunda disciplina que ele ministra no curso. Na primeira, falavasobre crônicas como um objeto para estudo da História. Na atual, elefala sobre as cidades, de como estão sendo afetadas pelodesenvolvimento das tecnologias de comunicação.Nesta disciplina, o Maronese divide as aulas com o Max. E para falardo Maronese, antes tenho que falar do Max. Formado em Publicidade, temuns 30 poucos anos, e se caracteriza por ser uma extensão docomputador. Extremamente tecnológico! Foi o fundador do curso dedesenvolvimento de games da Feevale. É um apaixonado pelo mundovirtual! De tal forma, que ata a esposa ele achou pela internet. O Maxaguarda ansiosamente por cada lançamento de produtos no mercado, egeralmente compra estes objetos antes mesmo de serem comercializadosno Brasil. Compras todas feitas pela internet, claro... Na aula,depois de uma empolgada apresentação que fez desse mundo virtual, oMax conseguiu provocar calafrios em todos, mas principalmente nos meuscolegas mais velhos.Já o Maronese é o oposto. Cada site de relacionamento novo que élançado é capaz de provocar tremedeiras no professor, um cara pacatoque já beira os 50 anos. Ele olha algo novo e exclama: onde é que omundo vai parar? Bastante nostálgico, evita ao máximo se aprofundar naárea. Claro que ele tem e-mail, mas não quer saber de orkut. Temcelular, mas acha o MSN um saco. Aulas por vídeo-conferência? Porenquanto ele garante que nunca vai participar ou ministrar algo usandoessa tecnologia... Mas embora possam pensar isso, o Maronese não é umsujeito ranzinza, pelo contrário. Em poucos minutos de conversa, eleganha a simpatia de qualquer pessoa. E provoca risos quando, do nada,no meio de uma partida de sinuca, exclama coisas como “que saudades dotempo em que não se usava celular”, “por que as pessoas não se visitammais do que antigamente?”, “já não conheço tão bem a cidade em quemoro”, “será que todos terão acesso a essas novas ferramentas”...É interessante conviver com esses dois extremos, ouvindo a empolgaçãodo Max e os receios do Maronese. Mas, em pelo menos uma questão, elesconcordam: que estamos num contexto histórico muito mais parecido como de 100 anos, do que o que teremos nos próximos 20. “As coisasacontecem em progressão geométrica”, ouço.Concordo com a afirmação. Porque, agora, o que está em jogo não éapenas as facilidades que o advento das máquinas trouxeram. É amudança na relação entre os humanos, que invariavelmente optam pelosfrios teclados de um computador do que por uma relação mais quenteproporcionada por uma visita amistosa a um amigo; abrem mão de umacaminhada um pouco mais longa que permite olhar a paisagem e sentir ocalor do sol numa manhã de inverno, para chegar mais rápido em carroscom películas tão escuras que não deixam ninguém do lado de fora saberquem está dentro do veículo.
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Bom, a comparação entre os dois não é o que mais interessa aqui. Masfoi por pensar nesse estranhamento entre Max e Maronese que acabeipensando em algo que foge um pouco do assunto. Que a tecnologia,embora cada vez mais avançada, assim como resolveu problemas, trouxeoutros. O telemarketing e os spans que entopem a caixa de entrada dose-mails são pequenos exemplos. E essa mesma tecnologia não resolveuoutros problemas, como o tempo perdido em filas de banco (nem tudo dápara fazer via internet ou por meio do caixa eletrônico), no tempogasto para alugar um apartamento (a quantidade de documentos egarantias pedidas são absurdas!), enfim, em todo e qualquer processoburocrático. As formas de relacionamento estão mudando, são cada vezmais superficiais. E está cada vez mais fácil se passar por outraspessoas. Assim, a confiança que antigamente as pessoas tinham nasoutras pessoas também mudou, mas para pior. Qualquer cadastramentohoje pode ser confundido com uma entrevista de cunho biográfico. E,lembrem-se, a falta de confiança trazida por estes novos tempos,embora pareça um problema simples, causou a maior crise mundial depoisde 1929... É, talvez o Maronese tenha sim uma certa razão...
Coluna publicada em Folha do Noroeste no dia 12-06-09
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