O ministro da Educação Fernando Haddad acena com a possibilidade de aumentar de 200 para 220 os dias letivos nas escolas brasileiras. Ou, pelo menos, ampliar a carga horária diária. Atualmente, cada criança passa – ou deveria passar – 800 horas por ano dentro de uma sala de aula. Mas, se depender do que disse o senhor ministro, esse tempo poderá aumentar pelo menos 10%, numa implantação gradativa que levaria quatro anos.
Seria a alegria de muitos pais ter onde deixar as crianças por mais 80 horas num ano. Mas nosso secretário da Educação, José Clovis de Azevedo já afirmou que, embora a favor, será preciso melhorar a infraestrutura das escolas do gaúchas para cumprir essa possível determinação. E isso requer INVESTIMENTO.
É óbvio que o ideal seria deixar os alunos oito e não quatro horas na escola, estudando, brincando, aprendendo atividades esportivas e artísticas, etc. Teoricamente, seria uma forma de melhorar a formação das próximas gerações, além de mantê-las em local seguro e convivendo socialmente. Então tentei me colocar no lugar de Haddad. Segue o mínimo que (acho) seria necessário para que isso se materializar.
1) Como há cada vez menos crianças no mundo – cada vez mais as famílias têm menos filhos, isso quando há família ou quando há filhos – é possível que as estruturas das instituições existentes não precisem ser muito ampliadas. Precisariam sim ser adaptadas para o desenvolvimento de atividades extraclasse. Não dá para oferecer esportes sem quadra, leitura sem biblioteca. E de recursos: não existe banda marcial sem instrumentos, aulas de inglês sem material didático, dança sem equipamento de som.
2) O mesmo vale para os quadros de professores e funcionários. O próprio secretário Azevedo, estima que para mais três horas-aula diárias teriam que ser contratados mais 10% de professores. Pouco, se levarmos em conta que o tempo de aula diário subiria 75%. Mas... e bibliotecária? Instrutor de banda? Professora de dança? Professores de educação física? Monitores de laboratórios de ciência e de computação?
3) E a merenda? Como segurar a gurizada na escola sem dar comida? O sistema de distribuição de alimentos está longe do ideal e faltam profissionais que preparem refeições (sem essa de distribuir bolacha!). Como resolver isso?
4) Já há poucos professores dispostos a assumirem escolas estaduais. Imagina com ampliação de dias letivos e manutenção de salário, além da falta de tempo para desenvolver uma proposta pedagógica. E não adianta falar em piso nacional se os Estados não cumprem...
5) Segurança. As escolas não são mais lugares seguros. Há poucos funcionários para cuidar quem entra e sai das instituições. A polícia vigia praticamente só quando as aulas começam e terminam. Se a tela ao redor da instituição de ensino tiver um único buraco, é um deusnosacuda. Como fazer?
Haddad cogita aumentar o orçamento destinado a Educação. "Estamos prevendo aumentar o investimento de 7% do PIB", disse ao Estado de SP. Eu pago pra ver. Torcerei muito para morder essa minha língua pessimista. Mas eu quero ver se o Governo Federal vai realmente ajudar financeiramente ou se vai jogar tudo no colo dos falidos Estados e municípios. Se for só para segurar as crianças na escola, sem crescimento nos índices de ensino, deixa em casa jogando vídeo game. Porque haja notinhas fiscais para serem coletadas e suprirem o básico que as autoridades sonegam.
publicado em 16-09-11
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